quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Cidade

O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas
Que cresceram com a força de pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam vigiando as pessoas
Não importa se são ruins, nem importa se são boas
E a cidade se apresenta centro das ambições
Para mendigos ou ricos e outras armações
Coletivos, automóveis, motos e metrôs
Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs



É um trecho da musica “A Cidade” de Chico Science. Foi o que me veio à cabeça em um passeio não costumeiro pela cidade de São Paulo. Fui à rua Santa Ifigênia, o antro dos produtos eletrônicos audiovisuais. Preciso ir pelo menos uma vez por ano lá. A rua Teodoro Sampaio também é uma das minhas preferidas. Não me sinto pessoa se não vaguear ao menos uma vez por ano pela Teodoro e pela Santa Ifigênia. Em um desses passeios me sobrou um tempo depois de ver alguns produtos e resolvi andar um pouco pela cidade. Conheço muito pouco o lugar, que tem a fama de ser perigoso e não recomendado para passeios. Pelo menos não para pessoas com “síndrome de condomínio”, que só sentem-se seguras fechadas com grades em sua própria prisão de luxo. Eu fui andando, só andando, sem rumo, sem medo e sem destino fixo. Olhava atentamente os curiosos tipos de pessoas, as casas de penhores que aceitam o que você tiver em mãos e sempre tem o que você precisa. Os botecos frequentados diariamente por fregueses assíduos. As casas de cortina vermelha onde ficam as mulheres mais dadas. Os carregadores de mercadoria, os advogados de terno, os camelôs e todos os transeuntes que por ali passavam. Avistei finalmente a monumental estação Julio Prestes, construída em 1938, uma obra prima da cidade de São Paulo. São mais de duzentos metros de comprimento em uma construção de estilo clássica francesa, situada no bairro dos Campos Elíseos (Champs Elysees) na região central da cidade. A construção original contava com um jardim clássico francês de 960 metros quadrados, que na época da sua restauração, na década de noventa, foi transformado na Sala São Paulo, uma sala de concertos. E lá estava eu, parado em frente à estação, com aquela cara de espanto, como se estivesse olhando para os jardins de Versalhes pela primeira vez. Já tinha ouvido falar da estação, e visto fotos ou vídeos. Quando eu fui lá eu era pequeno, e na verdade fui à Pinacoteca que fica ao lado. Foi então que, depois de alguns minutos admirando aquela obra eu pensei: “Talvez conheça melhor Paris ou Londres do que São Paulo”. Sim, isso mesmo. Lembro-me dos passeios que fiz pelas capitais européias (e se me permitem deixo para contá-los num post futuro), de ter visto o centro, edifícios históricos, museus e muitas outras coisas. É bem verdade, a Europa é quase um museu por si só. Mas por que será que nunca me despertou o interesse a beleza de São Paulo quanto despertou a beleza de outras cidades fora do Brasil?
Será que a comparação é tão desigual assim?


Bem, pode até ser que seja. São Paulo definitivamente não tem a beleza de Paris, a organização de Londres ou o charme de Amsterdã. Devemos porem nos lembrar que essas cidades também já estiveram em baixa à época das grandes guerras. Muitas coisas foram restauradas e reconstruídas. O que nunca esteve em baixa foi o amor dos cidadãos para com a cidade e o país. E é isso o que eu critico aqui. No Brasil as cidades se autodestroem. Não há amor às construções, aos costumes, à cultura, de um modo geral. Onde esta a nossa valorização, o nosso patriotismo? Não acho que parte das nossas cidades esteja destruída por culpa de seus governantes, mas por culpa nossa. Não nos mostramos interessados em preservar tudo isso. Parece que não significa nada para a gente. NÃO TEMOS TRADIÇÕES!


Falo das cidades como exemplo da falta de valorização da nossa cultura, pensando somente em obras arquitetônicas. Mas outras coisas podem ser usadas como exemplo. As nossas músicas. Quem realmente valoriza a música brasileira? É claro que a Bossa Nova é reconhecida como patrimônio cultural de todo o país, mas a Bossa Nova (discussões à parte, belíssima) é nosso produto de exportação. Todo esse reconhecimento nacional por ela advém do fato de o reconhecimento internacional ser grande. Foi moda nos Estados Unidos, como poderia deixar de ser no Brasil, seu país de origem? Ainda arrisco dizer que a Bossa pode não ser mais ouvida, mas é mais valorizada em outros países que no Brasil. Agora falemos em Maracatu, Baião e Forró (o tradicional). O reconhecimento é o mesmo? Não, não é. Esses ritmos não foram americanizados e, portanto, não são muito valorizados. Podem até ser mais ouvidos nos seus estados de origem, mas não chegam a ser “ritmos nacionais”.


O que será preciso então para que o brasileiro valorize a sua cultura? Para que tenhamos tradição? O que podemos fazer para mudar um pouco essa situação em que vivemos? Para iniciarmos, acho que algumas coisas podem ser feitas.


Começar pela nossa própria cidade não seria mal. Visitar o Centro, conhecer todos os seus edifícios importantes, teatros e museus. Procurar saber um pouco da história dos lugares. Conhecer a estação Julio Prestes, aproveitar e ir à estação da Luz, que é ali perto, e abriga o Museu da Língua Portuguesa. O Mosteiro de São Bento também é um lugar fantástico, junto ao Pátio do Colégio. Descansar sobre o Viaduto do Chá olhando o tráfego lá em baixo. Passear pela Praça da Sé, conhecer a Praça Júlio Mesquita, e lá saborear um delicioso “Filet do Morais” onde um dia Adoniran Barbosa compôs Trem das Onze, também comendo um filet. Ir à esquina mais famosa de São Paulo, entre a Avenida Ipiranga e a São João, tomar um chope. Conhecer outros lugares da cidade como o Mercado Municipal de São Paulo e suas tradicionais bancas portuguesas, o delicioso pastel de bacalhau e o sanduíche de mortadela. Ir a muitos outros lugares que não conheço ou me esqueci de citar aqui. Precisamos também incentivar mais as exposições culturais. Saber a importância de toda a nossa história e preservá-la. Depois, sair de São Paulo, ir ao Rio de Janeiro, Salvador, Recife e varias outras cidades. Procurar saber mais da música, das danças, das festas. Um samba, um baião, um forró.


Não sei se conseguiremos aumentar o patriotismo dos brasileiros, e sua valorização pela cultura, mas se fizermos isso com certeza aumentaremos o nosso, e nos divertiremos bastante!

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