quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Do Blog




É estranho como às vezes acontecem algumas coisas na vida que nos deixam com uma enorme sensação de fragilidade. Como alguns instantes podem mudar nossas vidas e, de repente, acabar com tudo aquilo que conhecemos, com tudo aquilo à que nos apegamos. É nessas horas que realmente lembramos daquilo que tem valor, do que realmente nos importa, e o que é pior, vemos quanta importância damos ao que não deveríamos.


No ultimo sábado fui a um churrasco. Uma bela confraternização com colegas, muitos dos quais eu nem conhecia. Entre carnes e cerveja conversei com várias pessoas e foi uma boa oportunidade para descontrair quase às vésperas do vestibular. Na volta, ofereci carona a alguns dos convidados até o metrô. No caminho, parado no farol, lá pelas 22h, uma súbita ação à minha esquerda me surpreendeu. Vi uma movimentação violenta entre dois homens. Tal ato chamou a atenção do meu olhar que a principio pensou se tratar de uma “simples” briga de rua. Mais atento, verifiquei que não era uma “simples” briga, era um assalto. Um homem assaltava a farmácia do meu lado, fazia três pessoas reféns do lado de fora. Era a violência chegando aos meus olhos, tudo aquilo que lemos nos jornais e vemos na televisão. Só que dessa vez estava ali, a três metros de distância. Sabia do risco que corria por estar muito perto, e logo pensei no que faria se fosse preciso fugir. Havia um carro parado na frente e carros do lado direito que impediam a fuga. Fiquei ali por mais ou menos um minuto, longuíssimo. Calado, tentei passar despercebido, não queria ser notado pelo assaltante. O farol abriu, saí o mais rápido possível, não olhei para trás. Meu pé mal sustentava a embreagem.



Após o incidente fiquei pensativo, perplexo com a violência a que somos submetidos em nossa cidade, mas não somente isso. A reflexão ia além, não era um simples protesto contra a atual situação do país que só incomoda quando me incomoda. Era pensar em quão rápido tudo pode acabar, era perceber que aos 19 anos senti pela primeira vez o risco real da morte. Logo depois fui acometido por uma sensação de melancolia, que pode até ser fisiologicamente explicada (aquela famosa sensação de moleza após um grande estresse), mas o fato é que nem sempre é. Por que só sentimos essa melancolia, só fazemos grandes reflexões (talvez não só, mas com maior freqüência e mais intensidade) quando algo não vai bem? Quando corremos um risco, quando sentimos um “desconcerto do mundo”?


[veja por oposição, por exemplo, a Bossa Nova. Samba de criações musicais e literárias maravilhosas, mas sem grandes reflexões. Espelhava aquele período de otimismo no Brasil da década de 1950, pós 2ª Guerra, industrialização, a prosperidade do capitalismo no mundo. – Guerra Fria à parte, não me parece que até 1964 tenha sido problema ao Brasil, pelo menos não ao ponto de influenciar as produções culturais daqui – Já o samba pós golpe militar traz incríveis reflexões, naquele clima de protesto, de ser contra, naquela atmosfera conturbada.]


Será que somos tão egoístas e quando nos sentimos felizes não queremos pensar muito? Talvez refletir possa abalar nossa felicidade momentânea. Talvez não queiramos desperdiçar tempo refletindo exatamente por sabermos que essa felicidade é momentânea. Ou então pode ser que pensemos melhor exatamente nas horas de maior dificuldade, após um trágico incidente por exemplo. Talvez tenhamos tudo guardado dentro de nós mas não saibamos expressar. Ou não temos coragem de expressar. Um fato ou estado de espírito (melancolia, tristeza...) podem servir de propulsão para que coloquemos para fora o que estava guardado. Criar um Blog por exemplo....


Há um bom tempo pensava na criação de um Blog, acho que o ocorrido foi um impulso decisivo para a concretização da idéia. Resolvi então criá-lo. Um local em que pretendo postar textos já escritos e outros que estão por vir, falar sobre artes, literatura e todo assunto que achar que pode gerar uma boa discussão, ou tão somente uma boa reflexão. Do Blog, abro-o com uma passagem cotidiana e uma reflexão, na promessa de dedicar mais tempo aos meus pensamentos.


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