Estamos há aproximadamente
quatro meses em quarentena, reclusos. Ou deveríamos estar. Uma pandemia assola
o planeta e brigamos para saber se o risco é real, ou se alguém está tirando
proveito político da situação. De uma forma ou de outra, concordamos em uma
coisa: é uníssona a vontade de que a pandemia acabe. Poderíamos sair das nossas
casas, sem as máscaras, e voltar a ter contato social. Mas por que exatamente o
isolamento social nos incomoda tanto?
Não há relatos na literatura
de ser humano que tenha se desenvolvido de forma associal. Todos nós, em menor
ou maior escala, dependemos uns dos outros. Mas qual é essa essência que nos
faz ficar mal por sermos forçados a nos isolar? Veja bem, haveria em toda a
nossa história momento mais oportuno que este para uma quarentena? Podemos
conversar instantaneamente uns com os outros de um dispositivo que cabe na
palma da mão, temos acesso a todo conhecimento já produzido pela humanidade na
internet e podemos ver filmes, series e qualquer outra coisa que imaginarmos
sem sair de casa. É bem verdade que usamos essa tecnologia mais para lazer e
humor do que para qualquer outra coisa, criando nosso próprio alívio cômico
(técnica utilizada em narrativas e filmes em que uma situação ou personagem
engraçado divide a cena com uma situação ou personagem dramático fornecendo uma
espécie de quebra de tensão) do dia a dia; mas isso não vem ao caso. Os
Memes são o alívio cômico do cotidiano! Agora, voltando à questão principal, em
que outra época teria sido melhor viver a quarentena? Num tempo em que não
havia internet, ligações telefônicas (e a própria linha telefônica) eram caras?
Num momento em que nos comunicávamos por cartas, e já teríamos a essa altura
lido todos os livros disponíveis na estante? Do que exatamente estamos
reclamando?
Ser forçado ao isolamento
social nos leva a um certo pessimismo e insatisfação, muito porque, somos
obrigados a conviver com nós mesmos e às vezes nossos familiares e pessoas mais
próximas. Mas principalmente porque somos obrigados a encarar os nossos
próprios problemas e dos outros ao redor. Um homem consola-se, bem ou mal,
daquilo que perde durante a vida, quando imerso numa rotina de automatismo. Mas
não consegue consolar-se a si mesmo quando entra em contato com as questões
mais profundas da sua mente, e não há nada para lhe distrair. Nem a internet
nem os aplicativos do celular serão suficientes nesse momento, pois nos
cansamos facilmente deles. Um indivíduo minimamente dotado de inteligência
saberá analisar seus sentimentos e perguntar os porquês, e então a resposta o
levará à tristeza.
Isolados, percebemos que
perdemos a capacidade (ou nunca soubemos ao certo, para ser mais exato) de
conviver irmanamente. Entendemos que boa parte da nossa atividade social era
trivial e carecemos de relações profundas uns com os outros. Incomodam-nos os
problemas não resolvidos, ecoam em nossos ouvidos os traumas passados.
Lembramo-nos das promessas quebradas, dos sonhos não concretizados. Quando
estamos sozinhos e olhamos para dentro, nos vemos vazios. Como vasos que se
encheram de porcarias que não precisavam para preencher o espaço que os incomodava.
Mas este tempo presente também
pode ser ótimo para reflexões. Quando vislumbramos e entendemos tudo aquilo que
nos incomoda, se formos verdadeiros, estamos prontos para uma profunda limpeza
espiritual. Jogamos fora tudo aquilo que ocupava espaço naquele nosso vaso e
aceitamos que o vazio não precisa necessariamente ser preenchido com o que não
gostamos. Consertamos pouco a pouco nossos problemas e esculpimos melhor a nós
mesmos. E se, por algum motivo ainda não soubermos fazer isso, oras, não é
exatamente um problema. A quarentena pessoal é opcional. Se não estiver
disposto a vive-la, apenas vista sua máscara e saia de casa. Afinal de contas,
não é como se você nunca tivesse vestido uma máscara para sair em público
antes.
Imagem: Excursion Into Philosophy, 1959, Edward Hopper
