domingo, 19 de dezembro de 2010

O Bicho

Um dia desses, saí com minha família para ir a um restaurante jantar. Era um desses restaurantes de comida japonesa, desses que estão em moda nas grandes cidades. Como de costume, a comida estava muito boa, com toda a variedade de pratos servidos, e qualidade incontestável. Pagamos a conta e fomos para casa. Até aí, nada de se estranhar, é algo que já fiz inúmeras vezes antes. Foi no caminho de volta, porém, que algo me chamou a atenção. Durante algum tempo pensei se devia postar isso, se devia comentar o fato, pois a final de contas é algo cotidiano. Depois percebi que grandes textos e obras literárias partem da análise de um fato cotidiano para depois desvendar algo. Decidi então contar o que eu vi, e como me senti depois disso.

Vi um sujeito, um homem, provavelmente um morador de rua, revirando uma lixeira, separando o que encontrava e julgava que podia ser comido. Procurava por alimento. Procurava no lixo, naquilo que foi descartado pelas pessoas, o que pudesse suprir a sua fome. Ele mastigava algo, algo que provavelmente encontrou nesse lixo. Primeiro me senti nauseado com aquela cena. Eu, de estômago cheio, vendo algo que na minha consciência é repugnante. É claro,sei que uma pessoa no estado daquele homem não teria outra opção, se não revirar o lixo àquela hora para encontrar comida. Mas as minhas concepções de higiene e saúde falaram mais alto. Logo depois me veio um sentimento de culpa. Primeiro pensei se era correto que eu saísse e pagasse para comer em um restaurante sendo que muitas pessoas não tinham nem o que comer, procuravam no lixo. Depois imaginei que eu teria certa parcela de culpa nisso, pois se por um lado a desgraça alheia me incomodava, por outro eu nunca fiz nada para impedir ou mudar isso. A essa altura minha satisfação pelo jantar já havia acabado totalmente, e eu não conseguia parar de pensar no pobre homem. Chegando em casa, lembrei de um poema de Carlos Drummond de Andrade, que eu acho que se encaixa perfeitamente aqui.


O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Fiz uma associação entre o que eu presenciei e o que eu anteriormente havia lido. Percebi então que aquele homem estava reduzido à condição de bicho, de animal. Não só pelo fato de lutar vorazmente por algo para comer, mas também pelo fato de ser ignorado por grande parcela da sociedade. Trata-se de um problema que eu considero mais grave do que a invisibilidade pública. É o que eu chamaria de animalização social. Um ser socialmente invisível não seria notado pela população, seria um mero objeto na paisagem urbana. Isso existe sim, mas em alguns casos acho que a situação excede isso. No caso acima citado o indivíduo pode ser visto, notado, e isso até incomoda a maioria das pessoas que o vêem, porém esse incômodo é passageiro. É muitas vezes tênue, de modo que o ser notado é encarado como um ser inferior, diminuto, reduzido à condição de animal. Não por acaso o poema de Drummond tem o nome de “O Bicho”, e não “O Homem”. Ele quer com isso chamar a atenção sobre a condição na qual o homem se encontra, e não o problema em si. O grande espanto ao lermos o poema vem quando ele diz: O bicho, meu Deus, era um homem.

Acredito, porém, que no nosso inconsciente, nós percebemos essa animalização, e percebemos que, de certa forma, contribuímos com ela. Essa percepção é então exposta, emerge e torna-se consciente. É o que nos faz sentirmos mal, enjoado, culpado, ao presenciar tal fato.