As vezes quando estou tocando guitarra ou ouvindo música me pego lamentando a morte de Kurt Cobain. Principalmente quando vem à cabeça alguma música do nirvana, que apesar de simplória é uma das coisas que mais me faz transcender. Já faz 15 anos que perdemos um dos mais ilustres compositores da Terra e o Nirvana ainda faz legiões de fãs pelo mundo. Há quem discorde e diga que Kurt foi só mais um desses compositores medíocres que fizeram sucesso de época e se autodestruíram com a fama. O fato é que uma década e meia após o seu fim a banda ainda faz sucesso, e muito sucesso.
Lembro-me bem da época mais Grunge da minha vida, usava cabelo comprido que ultrapassava o ombro, sempre bagunçado. Calça jeans rasgada no joelho, uma camisa xadrez ou de flanela (sem contar as infindáveis camisetas pretas de bandas). Calçava um All-Star, modelo Converse, de preferência bem usado. A parede do meu quarto era coberta por pôsteres de bandas, dos quais atualmente só restou um do Nirvana, que exibe a cara de Kurt. As músicas eram bem simples e raras vezes duravam mais de 3 minutos. Não tinha paciência para ouvir músicas longas. Usava uma guitarra Epiphone Special e um amplificador meteoro 30W. O som nunca era limpo, os acordes (na maioria das vezes bicordes) soavam sujos e com a máxima distorção possível. E eu achava que era a melhor música do universo. Sempre respeitei e gostei do rock clássico, mas nessa época ele não tinha nenhuma influência sobre minha vida. Era o auge da minha rebeldia de adolescente.
O tempo passou e com ele a minha experiência em relação à música aumentou. Vieram outras guitarras, outras bandas, e novas técnicas. As coisas ficaram mais complexas, não só na música, mas na vida em geral. Não dava mais pra vestir aquela calça rasgada e sair por aí curtindo. O cabelo, aliás, foi o que mais durou, só cortei há uns dois anos. Adquiri certa maturidade em relação às coisas. Passei a apreciar mais aquelas musicas do Led Zeppelin (com acordes e escalas que eu nem conhecia) e aquelas do Pink Floyd (com 16 minutos de duração). Depois veio o Blues e as musicas não tinham mais fim. Era só chamar mais alguém que tocasse e a gente improvisava por mais de uma hora. O som tornou-se limpo e a distorção mais moderada. Passei a admirar Jazz, Bossa Nova, Samba; alguma coisa de música clássica.
Muitas pessoas com as quais discuto música hoje me dizem que o Nirvana não acrescentou em nada o cenário musical, que não inovou em técnicas e que Kurt era um desastre no palco. Eu concordo se me disserem que não aprendi técnicas novas de guitarra com o Nirvana (a não ser como estourar algumas cordas e a própria guitarra em si). O que essa banda me ensinou foi mais do que técnica. Eles simplesmente me influenciaram a tocar guitarra, a começar. Gostava de ver os videoclipes e sentia vontade de fazer igual. Pegar uma guitarra, berrar o mais alto que eu podia e montar uma banda. Foi o que me introduziu no mundo do rock, o que criou um espírito rock em mim. Essa banda foi minha grande inspiração pra entrar no mundo da música. E isso é o que me surpreende até hoje. É ver que mesmo depois de todo o conhecimento musical que eu adquiri poucas bandas me fazem sentir o que sinto ouvindo Nirvana. Aliás, não poderia ter melhor nome que não esse. Kurt Cobain, Kirst Novoselic e Dave Grohl realmente atingiram um estágio de perfeição que nos promove quase ao nirvana. E essa elevação é conseguida com uma música tão simples. A grande genialidade é conseguir fazer o máximo com o mínimo, e isso, caros leitores, Kurt fez melhor que qualquer outro compositor. Não me espanta que o único pôster que tenha restado no meu quarto seja aquele com a cara de Cobain. Não poderia ser de outra banda. Arrisco dizer que eles foram e serão insuperáveis para mim, tão somente por sua música singela. E parece que milhares de pessoas ao redor do mundo compartilham esse sentimento comigo.
Fica agora uma dica do que foi o Nirvana e Kurt Cobain. Nos últimos meses de sua vida Kurt gravou com a banda o “Unplugged In New York MTV”, um cd que traz músicas da banda e músicas covers em versões acústicas, desplugadas. Num ambiente decorado com velas e flores que ironicamente simbolizam o seu próprio velório. Nesse Show já era possível perceber a depressão e os problemas de Cobain com as drogas. Nas músicas “Plateau” e “Lake of Fire” (em que Kurt só participa com a voz) é possível notar o músico longe, querendo estar em outro lugar, cantando intuitivamente. Ele fecha o show com uma versão de uma musica do Ledbelly (cantor de blues e folk americano de 1930) chamada “Where Did You Sleep Last Night” [ou “In The Pines” na versão original] que conta uma história de amor, ciúme, morte, assassinato e fuga, e que faz com que a banda recupere as origens da música folk americana. O inicio da canção, com um acorde pesado e Kurt quase surrando o violão, já é formidável. Kurt segura a voz até o refrão final quando começa a berrar os últimos versos como se usasse sua garganta pela última vez. Ele termina esticando a duração da palavra “shiver”, choraminga “the whole” e solta um suspiro, como se estivesse cansado, desistindo. Depois outro suspiro para recuperar o fôlego, brevemente ergue os olhos e encara a platéia. E vem: “night through”. Produtores da MTV insistiram para que Cobain voltasse aos palcos e cantasse outra canção, mas ele sabia que seria impossível superar o que ele havia feito anteriormente. Talvez fosse impossível pelo resto de sua vida. Talvez fosse melhor abreviá-la, não pelo fato de não superar sua musica anterior, mas pelo fato de não superar a criança que um dia havia sido, entusiasmada, feliz. Será que com toda a fama não havia alegria, Sr. Cobain? De certo que havia. O problema da alegria é que ela era chata.
Kurt suicidou-se em abril de 1994, deixando até hoje milhares de fãs desolados. Deixo aqui o vídeo da canção “Where Did You Sleep Last Night” para assistirem. Pra quem se interessou pela vida do astro recomendo o livro “Mais Pesado Que O Céu”, uma biografia de Cobain, que também não poderia ter melhor nome.