Um dia desses, saí com minha família para ir a um restaurante jantar. Era um desses restaurantes de comida japonesa, desses que estão em moda nas grandes cidades. Como de costume, a comida estava muito boa, com toda a variedade de pratos servidos, e qualidade incontestável. Pagamos a conta e fomos para casa. Até aí, nada de se estranhar, é algo que já fiz inúmeras vezes antes. Foi no caminho de volta, porém, que algo me chamou a atenção. Durante algum tempo pensei se devia postar isso, se devia comentar o fato, pois a final de contas é algo cotidiano. Depois percebi que grandes textos e obras literárias partem da análise de um fato cotidiano para depois desvendar algo. Decidi então contar o que eu vi, e como me senti depois disso.
Vi um sujeito, um homem, provavelmente um morador de rua, revirando uma lixeira, separando o que encontrava e julgava que podia ser comido. Procurava por alimento. Procurava no lixo, naquilo que foi descartado pelas pessoas, o que pudesse suprir a sua fome. Ele mastigava algo, algo que provavelmente encontrou nesse lixo. Primeiro me senti nauseado com aquela cena. Eu, de estômago cheio, vendo algo que na minha consciência é repugnante. É claro,sei que uma pessoa no estado daquele homem não teria outra opção, se não revirar o lixo àquela hora para encontrar comida. Mas as minhas concepções de higiene e saúde falaram mais alto. Logo depois me veio um sentimento de culpa. Primeiro pensei se era correto que eu saísse e pagasse para comer em um restaurante sendo que muitas pessoas não tinham nem o que comer, procuravam no lixo. Depois imaginei que eu teria certa parcela de culpa nisso, pois se por um lado a desgraça alheia me incomodava, por outro eu nunca fiz nada para impedir ou mudar isso. A essa altura minha satisfação pelo jantar já havia acabado totalmente, e eu não conseguia parar de pensar no pobre homem. Chegando em casa, lembrei de um poema de Carlos Drummond de Andrade, que eu acho que se encaixa perfeitamente aqui.
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Fiz uma associação entre o que eu presenciei e o que eu anteriormente havia lido. Percebi então que aquele homem estava reduzido à condição de bicho, de animal. Não só pelo fato de lutar vorazmente por algo para comer, mas também pelo fato de ser ignorado por grande parcela da sociedade. Trata-se de um problema que eu considero mais grave do que a invisibilidade pública. É o que eu chamaria de animalização social. Um ser socialmente invisível não seria notado pela população, seria um mero objeto na paisagem urbana. Isso existe sim, mas em alguns casos acho que a situação excede isso. No caso acima citado o indivíduo pode ser visto, notado, e isso até incomoda a maioria das pessoas que o vêem, porém esse incômodo é passageiro. É muitas vezes tênue, de modo que o ser notado é encarado como um ser inferior, diminuto, reduzido à condição de animal. Não por acaso o poema de Drummond tem o nome de “O Bicho”, e não “O Homem”. Ele quer com isso chamar a atenção sobre a condição na qual o homem se encontra, e não o problema em si. O grande espanto ao lermos o poema vem quando ele diz: O bicho, meu Deus, era um homem.
Acredito, porém, que no nosso inconsciente, nós percebemos essa animalização, e percebemos que, de certa forma, contribuímos com ela. Essa percepção é então exposta, emerge e torna-se consciente. É o que nos faz sentirmos mal, enjoado, culpado, ao presenciar tal fato.
domingo, 19 de dezembro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Mais Pesado Que O Céu
As vezes quando estou tocando guitarra ou ouvindo música me pego lamentando a morte de Kurt Cobain. Principalmente quando vem à cabeça alguma música do nirvana, que apesar de simplória é uma das coisas que mais me faz transcender. Já faz 15 anos que perdemos um dos mais ilustres compositores da Terra e o Nirvana ainda faz legiões de fãs pelo mundo. Há quem discorde e diga que Kurt foi só mais um desses compositores medíocres que fizeram sucesso de época e se autodestruíram com a fama. O fato é que uma década e meia após o seu fim a banda ainda faz sucesso, e muito sucesso.
Lembro-me bem da época mais Grunge da minha vida, usava cabelo comprido que ultrapassava o ombro, sempre bagunçado. Calça jeans rasgada no joelho, uma camisa xadrez ou de flanela (sem contar as infindáveis camisetas pretas de bandas). Calçava um All-Star, modelo Converse, de preferência bem usado. A parede do meu quarto era coberta por pôsteres de bandas, dos quais atualmente só restou um do Nirvana, que exibe a cara de Kurt. As músicas eram bem simples e raras vezes duravam mais de 3 minutos. Não tinha paciência para ouvir músicas longas. Usava uma guitarra Epiphone Special e um amplificador meteoro 30W. O som nunca era limpo, os acordes (na maioria das vezes bicordes) soavam sujos e com a máxima distorção possível. E eu achava que era a melhor música do universo. Sempre respeitei e gostei do rock clássico, mas nessa época ele não tinha nenhuma influência sobre minha vida. Era o auge da minha rebeldia de adolescente.
O tempo passou e com ele a minha experiência em relação à música aumentou. Vieram outras guitarras, outras bandas, e novas técnicas. As coisas ficaram mais complexas, não só na música, mas na vida em geral. Não dava mais pra vestir aquela calça rasgada e sair por aí curtindo. O cabelo, aliás, foi o que mais durou, só cortei há uns dois anos. Adquiri certa maturidade em relação às coisas. Passei a apreciar mais aquelas musicas do Led Zeppelin (com acordes e escalas que eu nem conhecia) e aquelas do Pink Floyd (com 16 minutos de duração). Depois veio o Blues e as musicas não tinham mais fim. Era só chamar mais alguém que tocasse e a gente improvisava por mais de uma hora. O som tornou-se limpo e a distorção mais moderada. Passei a admirar Jazz, Bossa Nova, Samba; alguma coisa de música clássica.
Muitas pessoas com as quais discuto música hoje me dizem que o Nirvana não acrescentou em nada o cenário musical, que não inovou em técnicas e que Kurt era um desastre no palco. Eu concordo se me disserem que não aprendi técnicas novas de guitarra com o Nirvana (a não ser como estourar algumas cordas e a própria guitarra em si). O que essa banda me ensinou foi mais do que técnica. Eles simplesmente me influenciaram a tocar guitarra, a começar. Gostava de ver os videoclipes e sentia vontade de fazer igual. Pegar uma guitarra, berrar o mais alto que eu podia e montar uma banda. Foi o que me introduziu no mundo do rock, o que criou um espírito rock em mim. Essa banda foi minha grande inspiração pra entrar no mundo da música. E isso é o que me surpreende até hoje. É ver que mesmo depois de todo o conhecimento musical que eu adquiri poucas bandas me fazem sentir o que sinto ouvindo Nirvana. Aliás, não poderia ter melhor nome que não esse. Kurt Cobain, Kirst Novoselic e Dave Grohl realmente atingiram um estágio de perfeição que nos promove quase ao nirvana. E essa elevação é conseguida com uma música tão simples. A grande genialidade é conseguir fazer o máximo com o mínimo, e isso, caros leitores, Kurt fez melhor que qualquer outro compositor. Não me espanta que o único pôster que tenha restado no meu quarto seja aquele com a cara de Cobain. Não poderia ser de outra banda. Arrisco dizer que eles foram e serão insuperáveis para mim, tão somente por sua música singela. E parece que milhares de pessoas ao redor do mundo compartilham esse sentimento comigo.
Fica agora uma dica do que foi o Nirvana e Kurt Cobain. Nos últimos meses de sua vida Kurt gravou com a banda o “Unplugged In New York MTV”, um cd que traz músicas da banda e músicas covers em versões acústicas, desplugadas. Num ambiente decorado com velas e flores que ironicamente simbolizam o seu próprio velório. Nesse Show já era possível perceber a depressão e os problemas de Cobain com as drogas. Nas músicas “Plateau” e “Lake of Fire” (em que Kurt só participa com a voz) é possível notar o músico longe, querendo estar em outro lugar, cantando intuitivamente. Ele fecha o show com uma versão de uma musica do Ledbelly (cantor de blues e folk americano de 1930) chamada “Where Did You Sleep Last Night” [ou “In The Pines” na versão original] que conta uma história de amor, ciúme, morte, assassinato e fuga, e que faz com que a banda recupere as origens da música folk americana. O inicio da canção, com um acorde pesado e Kurt quase surrando o violão, já é formidável. Kurt segura a voz até o refrão final quando começa a berrar os últimos versos como se usasse sua garganta pela última vez. Ele termina esticando a duração da palavra “shiver”, choraminga “the whole” e solta um suspiro, como se estivesse cansado, desistindo. Depois outro suspiro para recuperar o fôlego, brevemente ergue os olhos e encara a platéia. E vem: “night through”. Produtores da MTV insistiram para que Cobain voltasse aos palcos e cantasse outra canção, mas ele sabia que seria impossível superar o que ele havia feito anteriormente. Talvez fosse impossível pelo resto de sua vida. Talvez fosse melhor abreviá-la, não pelo fato de não superar sua musica anterior, mas pelo fato de não superar a criança que um dia havia sido, entusiasmada, feliz. Será que com toda a fama não havia alegria, Sr. Cobain? De certo que havia. O problema da alegria é que ela era chata.
Kurt suicidou-se em abril de 1994, deixando até hoje milhares de fãs desolados. Deixo aqui o vídeo da canção “Where Did You Sleep Last Night” para assistirem. Pra quem se interessou pela vida do astro recomendo o livro “Mais Pesado Que O Céu”, uma biografia de Cobain, que também não poderia ter melhor nome.
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